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Esse blog é um espaço para a reflexão de como podemos fazer para Viver de Teatro.
É possível? Vale a pena?
Espero que meus relatos e os comentários postados aqui por vocês possam servir de debate nessa discussão.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quero apenas trabalhar como ator!

Um querido aluno foi assistir a uma peça de teatro e, ao final, no debate, uma pessoa perguntou:
- Como vocês fazem para sobreviver nesta área?
Entre alguns exemplos o ator reforçou:
- Damos aulas para nos manter com um salário fixo.
Meu aluno voltou para casa mais intrigado com essa colocação do que refletindo sobre a peça. Ora, ele já foi professor e não se identificou. Não professor de teatro, mas professor de Geografia.
Encucado com a questão diretamente ele me procurou no facebook, abriu a janelinha do bate-papo e desabafou comigo sua insegurança acerca do mercado de trabalho.

Claro que o ator foi extremamente honesto. Esse ator, eu e milhares de colegas de profissão buscamos essa segurança financeira nas inúmeras aulas, oficinas, workshops... Mas não é o único meio. Percebemos claramente a realidade de Ribeirão Preto se transformando nos últimos anos. Com diversos profissionais formados pelo curso Técnico e pela Graduação a cidade percebe a demanda por uma abertura de espaços na área teatral. O SESC se transformou num grande parceiro, investindo em contações de Histórias, Leituras Dramáticas, incentivando novas montagens e fomentando o projeto de Itinerância pelas escolas Municipais.

Além disso existe uma vida Teatral imensa fora de nossa cidade. Além do eixo Rio-SP podemos buscar vínculos em cursos específicos que algumas companhias oferecem e, se perceberem a identificação desse ator com a linguagem desenvolvida pelo grupo, certamente essa união poderá gerar frutos.

Em vários outros “posts” aqui neste BLOG discorri sobre assuntos ligados ao marketing pessoal, o compromisso com a ética, a realização de um trabalho de qualidade e o vínculo com pessoas pesquisadoras das Artes Cênicas.

Talento, dedicação, muito estudo e ralação com uma dose de sorte são os ingredientes para uma carreira de sucesso!

Merd®a!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Viver é Teatro

(por Mauro Cezar Rodrigues)

Desde a primeira vez que fui assistir a uma peça teatral infantil, na minha distante infância, senti uma atração e um respeito inomináveis pelo Teatro. A magia das luzes, os sinais de som, as personagens, o apagar das luzes, os atores e os aplausos, faziam-me e ainda fazem-me sentir uma emoção arrepiante.


Queria viver aquele e daquele “mundo”. Um mundo, alicerçado no corpo. Corpo este, inexistente sem a alma, que sempre tem algo a transmitir e a capacidade de transformar.

O Teatro é a fonte da mensagem verbal: a vontade, a sensibilidade, a palavra, a racionalidade... E da não verbal: a respiração, o olhar, o corpo, o lúdico...

Somos os protagonistas de nossas vidas e podemos observá-las com o olhar do Teatro, da arte. Quando sentimos fortes emoções, principalmente quando amamos ou nos apaixonamos, a nossa percepção de vida é lírica, passamos a narrar nossa vida em poesia.

Já no nosso dia-a-dia, a vida pode ser sentida e “vivida” no gênero épico - Uma narrativa que começa no dia em que tomamos consciência de nossa existência, fundindo-se entre atos, num conto ou numa crônica com fatos comuns e incomuns, inerentes à simplicidade e à complexidade de viver e conviver.

Emoções fortes, intrigas, perdas e decepções com ingredientes de alegria, tristeza, encantos, desencantos e fé. A vida imita a arte ou a arte licencia a vida? Outra confluência, agora sob o prisma do gênero dramático, recheado de elementos da tragédia, da comédia, do drama e até de um auto.

No momento em que fui convidado a escrever essas linhas, pude perceber um subgênero, o ensaístico.

Se Shakespeare escreveu: “Pois o objetivo do teatro, a princípio e agora, foi e é oferecer uma espécie de espelho à natureza, mostrar à virtude os seus próprios traços, à derrisão a sua exata efígie, à sociedade a verdadeira imagem do seu tempo...”, ratifica-se a observação de que a vida é uma peça de Teatro que se encena todos os dias.


Contudo, “o viver de Teatro” é um pouco mais complexo. Num país de políticas educacionais e culturais que beiram o amadorismo, a falta de fiscalização - principalmente fora do eixo Rio - São Paulo - e o desmazelo de outrem com manifestações “artísticas gratuitas e sem sentido”, faz com que muitos não consigam ganhar seu pão apenas com ofício teatral. Sem contar o preconceito que em pleno século XXI é inerente a qualquer atividade artística.

Fica clara a percepção de que “o viver de Teatro” passa pela transmissão de seriedade e pela transformação da visão e atitude de seus participes. Nada mais do que respeito e comprometimento.



Mauro Cezar Rodrigues é ator, locutor, jornalista e professor na área social e de comunicação.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Trabalho chama Trabalho

É difícil viver de Teatro? Não sei... Às vezes me parece que sim, que nossos cachês não são tão altos, que as leis de incentivo só incentivam quem já tem “nome”, que nossa arte é considerada supérflua ou complexa demais para a sociedade atual. Mas não posso reclamar dessa dureza.
Venho engatando um trabalho atrás do outro desde que iniciei nessa profissão. As portas vão se abrindo, os colegas indicando e o constante aperfeiçoamento e o empreendedorismo vêm ajudando a me consolidar nessa área.

Penso que nós, homens (e mulheres) de teatro somos responsáveis pelo nosso próprio marketing. “QUEM NÃO É VISTO NÃO É LEMBRADO”. Essa máxima da publicidade também se aplica a nós! Freqüentar os teatros, participar de oficinas, mesas redondas, palestras... Nunca paramos. Estamos em constante aprendizado.

Por isso acredito muito que realizando bons trabalhos, com seriedade, ética, honestidade na proposta artística, comprometimento com a estética, apresentando o resultado de uma pesquisa dá credibilidade e nos revela como pessoas envolvidas com a ARTE e não com caprichos e cagadas (embora sempre desejamos “merda” não é por isso que vamos realizar nosso trabalho com esse fedor).

Naquela platéia estranha, ao seu lado na sala de aula, lendo o que você posta nas redes sociais, vendo a matéria que saiu sobre seu trabalho no jornal, enfim, nesses lugares e em tantos outros pode estar aquela pessoa que será o seu passaporte para o mercado de trabalho. É bem pertinho da gente que se encontra as molas propulsoras para o nosso crescimento profissional, principalmente nessa linda área do teatro.

“Só se ama aquilo que se conhece”.

A Sala de Aula é um espaço adequado para o Teatro?

Muitos professores têm pedido para que eu poste alguns temas relacionados ao Teatro na Sala de Aula. Acreditando que essa forma de expressão das Artes Dramáticas pode preparar o aluno da escola comum (entenda aqui a escola que não é específica para um curso de Teatro) resolvi colaborar neste sentido.

Em primeiro lugar: fazer Teatro não é “montar pecinha”. Aliás, não há termo mais pejorativo com a nossa arte do que esse. Nosso trabalho é muito grande para se chamar de “pecinha”.

O aluno deve ser inserido com sutileza aos Jogos Teatrais, tranquilamente que quando ele se der conta já estará participando com os demais alunos e tão envolvido estará que sempre desejará participar.

O professor deve respeitá-lo, deixá-lo à vontade na sala e preparar suas atividades com segurança e conhecimento de causa, para que seus olhos revelem o conteúdo que será transmitido.

Uma dica valiosa é organizar a sala de aula, que muitas vezes não está preparada para a atividade teatral. Não precisamos de um teatro para que nossas aulas se realizem em plenitude. Se esperarmos a sala ideal, a escola ideal, o aluno ideal NÃO SEREMOS OS PROFESSORES IDEAIS. Nossa capacidade de criatividade é muito grande para apenas reclamarmos dos problemas encontrados. É preciso que a sala esteja limpa e que afastem as carteiras para obter mais espaço e evitar que um aluno se machuque. Uma sugestão é convidar os alunos a participarem deste momento, orientando que façam essa ação com cuidado, silêncio e organização (isso já pode ser considerado um jogo dramático?).

Não se esqueçam das roupas adequadas: tecidos leves, vestimentas que possibilitem os movimentos. Evitar calças jeans e saias apenas com shorts por baixo! Ah... um pezinho cheiroso e as axilas com desodorante evitam desmaios (risos).

Durante um bom tempo o professor deve preparar suas aulas com:
  • Aquecimento Corporal
  • Aquecimento Vocal
  • Jogos Dramáticos

Preparando o corpo: conhecendo o próprio corpo e seus limites o aluno perceberá a presença do corpo do outro. Aquecer as articulações, promover espreguiçamentos (alongamentos) e deixar o corpo em estado de prontidão trará um rendimento efetivo nas aulas.

Preparando a voz: o professor e o ator, entre outros, são profissionais da voz. Aproveite esse tempo com os alunos e aqueça sua voz, juntamente com eles, para evitar danos e melhorar o rendimento vocal. Conhecendo bem a voz o aluno poderá utilizá-la de várias formas. Vibração de lábios (imitando carrinho) alternando em graves e agudos além de divertido é muito eficaz.

Vamos aos jogos...
 É um momento divertido de espontaneidade. O aluno só precisará ter vontade de se lançar ao desconhecido. É o momento de o aluno criar e do professor orientar. Não mostramos o COMO, apenas provocamos com a problemática uma situação que o aluno deverá resolver.

E aí? Vamos Jogar?

quarta-feira, 23 de março de 2011

Verdade Artística

Por Constatin Stanislavski

A Verdade cênica não é a pequena verdade exterior que leva ao naturalismo. (...) É aquilo em que vocês podem acreditar com sinceridade. (...) Para que seja artística aos olhos do ator e do espectador, até mesmo uma inverdade deve transformar-se em verdade.

(...) O segredo da arte é converter uma ficção numa bela verdade artística.

(...) A partir do momento em que o ator e o espectador passam a duvidar da realidade [da vida do ator na peça], a verdade se esvai, e com ela a emoção e a arte. Elas são substituídas, então, pela dissimulação, pela falsidade teatral, pela imitação e pela atuação rotineira.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Teatralidade

(Resumo a partir do livro Dicionário de Teatro – Patrice Pavis – Ed. Perspectiva)


Nossa época teatral se caracteriza pela busca dessa teatralidade por demasiado tempo oculta.

(...) A teatralidade seria aquilo que, na representação ou no texto dramático,é especificamente teatral (ou cênico) no sentido que o entende, por exemplo A. Artaud, quando constata o recalcamento da teatralidade no palco europeu tradicional: “Como é que o teatro tudo o que é especificamente teatral, isto é, tudo o que não obedece à expressão pela fala, pelas palavras, ou,se quisermos, tudo o que não está contido no diálogo, seja deixado em segundo plano?”

A teatralidade pode opor-se ao texto dramático lido ou concebido sem a representação mental de uma encenação. Em vez de achatar o texto dramático por uma leitura, a espacialização, isto é, a visualização dos enunciadores, permite fazer ressaltar a potencialidade visual e auditiva do texto, apreender sua teatralidade.

“Que é Teatralidade? É o teatro menos o texto, é uma espessura de signos e de sensações que se edifica em cena a partir do argumento escrito, é aquela espécie de percepção ecumênica dos artifícios sensuais, gestos, tons, distâncias, substâncias, luzes, que submerge o texto sob a plenitude de sua linguagem exterior.” (BARTHES)

Do mesmo modo, no sentido artaudiano, a teatralidade se opõe à literatura, ao teatro de texto, aos meios escritos, aos diálogos e até mesmo, às vezes, à narratividade e à ‘dramaticidade’ de uma fábula logicamente construída.

É preciso buscar a teatralidade na forma da expressão, na maneira pela qual o texto fala do mundo exterior e do qual mostra (iconiza) o que ele evoca pelo texto e pela cena.

• Roland BARTHES (1915 – 1980) foi escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês.

Como Nasrudin Criou a Verdade

(Não só de Teorias de Teatro vive um ator... Segue uma história interessante para preenchermos nosso interior)

Como Nasrudin Criou a Verdade

 Por Khawajah Nasr Al-Din (século XIV/ Turquia)

- As leis não fazem com que as pessoas fiquem melhores – disse Nasrudin ao Rei. – Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com a verdade interior, que se assemelha levemente à verdade aparente.

O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade – e assim o Rei o faria.

O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca.

Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que ali passassem. Um edital fora imediatamente publicado: “Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforcado.”

Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar a ponte.

- Onde o senhor pensa que vai? – perguntou o Chefe da Guarda.

- Estou a caminho da forca – respondeu Nasrudin, calmamente.

- Não acredito no que está dizendo!

- Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.

- Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!

- Isso mesmo – respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. – Agora vocês já sabem o que é a verdade: é apenas a sua verdade.